Árbitro sem Juiz

Imagine sair da Somália para ser o primeiro árbitro de seu país a comandar um jogo de futebol em uma Copa do Mundo e, inesperadamente, ser surpreendido no aeroporto com a impossibilidade de entrar nos Estados Unidos, sob a acusação de ser terrorista. Seria um grande feito para Omar Artan, que acabou barrado pela Alfândega e Proteção de Fronteiras de um dos países-sede do campeonato mundial de 2026.

O homem que detém o poder absoluto sobre as regras do jogo se torna completamente impotente diante de regras que ele sequer pode ver. No campo, ele detém o poder; no aeroporto, o poder do Estado é silencioso, invisível e irrecorrível.

No ecossistema do futebol, a palavra de Omar Artan é a lei. Ele é o homem treinado para decidir o destino de uma jogada em fração de segundos, cercado por dezenas de câmeras, sob os olhos atentos de milhões de pessoas e amparado por um protocolo milimétrico de revisão de lances. No gramado, a injustiça se corrige com o VAR.

A ironia é que, ao desembarcar em Miami, o melhor árbitro da África experimentou o avesso exato do seu mundo. Diante de um balcão de imigração, Artan descobriu o que significa jogar sem regras claras. Ali, o juiz virou réu. Foi condenado por um tribunal sem rosto, sem acusação formal e sem direito à ampla defesa. Um veredito sumário baseado no limbo das “preocupações de segurança” e, talvez, em um tuíte antigo de quatro palavras.

Para quem passou a vida aplicando cartões vermelhos com base em fatos explícitos, o cartão vermelho da geopolítica americana veio sem que ele sequer tivesse cometido uma falta. Não houve checagem na cabine, não houve o benefício da dúvida. A Copa do Mundo de 2026, que se vende como o ápice da integração global entre três nações, começou mostrando que, fora das quatro linhas, o fair play é a primeira regra a ser descartada.

Enquanto Washington operava na sombra da suspeita, Toronto tentava improvisar uma diplomacia de emergência para salvar o árbitro somali. Mas pelo desfecho que essa história teve, com o retorno do árbitro ao seu país de origem, o paradoxo já estava eternizado: o homem escalado para fazer cumprir as leis no maior palco do planeta foi barrado justamente por quem dita as leis do mundo.

O presidente da FIFA disse que não pode se sobrepor às decisões dos governos: “somos uma organização esportiva”. Eleito o melhor árbitro de futebol do continente africano, Omar Artan não poderá participar do campeonato e foi cortado pela FIFA do mundial de 2026. Lamentável.

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