E lá estava eu, indo para não me recordo onde, quando uma senhora pediu licença e se sentou ao meu lado. Não passou um minuto, ela olhou para mim, sorriu, e disse: “Hoje está frio, né?” Ao que eu respondi: “Sim.” E ela continuou: “Comentei com a minha filha: hoje vai fazer frio.” E sem que eu dissesse qualquer palavra, quando percebi, ela estava contando como conheceu seu falecido marido, quando e como ele faleceu, falou sobre seus filhos, que os netos jogavam vôlei por um determinado clube.
Eu apenas dava atenção, com o pescoço voltado para ela e já doendo pelo tempo que ela conversava comigo.
Em cerca de quinze minutos, eu sabia qual era sua profissão, que seu patrão debochava das coisas que ela dizia, e ela se irritava com isso.
Durante a viagem, ela parecia estar passando por um turbilhão de emoções: raiva, indignação, saudade, tristeza, alegria.
De repente, levantou-se, despediu-se, sorrindo, feliz e alegre como uma criança que sai para ir ao parque de diversões. Perguntou meu nome, disse-me o dela, e só faltou sair pulando de alegria. Eu não dissera nada, o tempo todo me comportei como uma boa ouvinte, e parece que isso fez muito bem a ela. Com o pescoço doendo e meio tonta, pude entender como se sentem os psicanalistas.
Pensei: que bom, ela foi embora se sentindo melhor.
Passados alguns dias, estou eu voltando do dentista e, de repente, a passageira ao lado olha para mim e começa a conversar, faz uma pergunta, e eu digo “sim”, esse é o sinal para o início da “sessão de terapia”.
E ela começou a contar-me sobre sua família, problemas de saúde, filho, nora, netas, e meu pescoço já começava a doer, mas estávamos em terapia. Minutos antes de ela se despedir, eu já pensava em interromper e dizer “sua sessão terminou”, mas ela foi mais rápida, despediu-se e se foi.
Outro dia, estava eu com meu filho esperando um táxi, quando uma senhora atravessa a rua e caminha direto em minha direção. Juro que pensei que seria assaltada, meu filho pensou a mesma coisa.
A mulher começou a falar comigo como se fosse uma velha conhecida, passou a mão em meu braço e perguntou: “Está vendo aquela moça ali?” E eu, de novo, respondi “sim”, e vocês lembram: esse é o sinal para o início da terapia. Já se sentindo íntima, ela pôs a mão em meu braço e disse: “Eu cuidei da mãe dela.” Olhei para o meu filho, meu filho olhou para mim com um leve sorriso, ele já sabe que eu tenho essa função amadora de psicanalista nas horas vagas. Eu já ia dizer que não tinha mais horário para aquele dia, quando meu táxi chegou e fui obrigada a interromper a sessão de terapia.


