Hoje pela manhã, tive que desviar de minha rota e sem querer, me peguei fazendo um trajeto que há muitos anos não fazia, distraída com outros pensamentos e de repente, o prédio de tijolos aparentes surgiu na minha frente. E antes que eu pudesse evitar, uma mãozinha atravessou décadas e segurou a minha.
Elas pediram para escovar meu cabelo. Essa foi a lembrança imediata que veio à minha mente.
Eu tinha entre vinte e vinte e dois anos, e visitava um orfanato de meninas naquele domingo à tarde.
Lembro de estar com três ou quatro meninas, entre cinco e sete anos de idade. Estávamos sentadas em um pátio do orfanato e elas pediram para me pentear. Não lembro dos detalhes de nossa conversa, mas me pentearam, conversamos, elas perguntaram várias coisas, curiosas, queriam saber tudo sobre mim.
Conversávamos sobre vários assuntos relacionados a elas quando me convidaram para conhecer o quarto delas. Lembro de subirmos para o segundo andar da construção, um prédio grande, com o nome de “Lar Gabriel”.
Me recordo que ao chegarmos no quarto delas, vi várias camas perfiladas, acho que havia três ou quatro fileiras de camas, e o mais encantador era que em cada cama havia uma boneca ou um bichinho. Cada menina tinha sua cama e sua boneca ou brinquedos preferidos que ficavam sobre a cabeceira.
Quando chegou a hora de eu ir embora, uma das meninas não queria que eu fosse, ela segurou minha mão até eu chegar na portaria, onde eu tinha que me despedir. Não foi fácil, ela chegou a pedir para que eu não fosse embora e não soltava minha mão. Eu prometi que voltaria, mas precisava ir embora porque o Lar tinha horário para visitas. Então ela soltou minha mão, mas pediu que eu voltasse mais vezes para vê-la.
Retornei algumas vezes, mas por causa de compromissos do dia a dia, deixei de visitar o orfanato.
E hoje me peguei pensando naquelas meninas, onde estarão? Como será a vida delas hoje? O que terão se tornado? Profissionais? Com certeza são mães. Avós?
E o que terá acontecido na vida daquela menininha que me acompanhou e não queria soltar minha mão de jeito nenhum?
E afinal quem terá feito companhia para quem? Quem terá levado carinho para quem? Será mesmo que fui embora aquele dia? Ou permaneci por lá? Fisicamente sim, fui embora, mas um pouco de mim ficou junto daquela menina.



