“O Machismo é o medo dos homens das mulheres sem medo”.
Eduardo Galeano
Jornalista e Escritor Uruguaio (1940 – 2015)
Essa frase do escritor uruguaio Eduardo Galeano é a síntese perfeita do machismo. Ela retira o véu da “agressividade” e do “controle” masculino e revela o que está por baixo: a fragilidade.
Recentemente, ao deparar-me com esse pensamento de Galeano, percebi que ele define algo que observo há muito tempo no cotidiano: o abismo entre a evolução feminina e a estagnação dos homens.
Enquanto o comportamento da mulher mudou drasticamente, o do homem parece, em grande parte, ancorado no passado. No Brasil, essa revolução feminina foi escrita com lutas intensas. Em 1827, conquistamos o acesso às escolas primárias; em 1879, o direito ao ensino superior. O voto veio apenas em 1932 — há menos de cem anos, a política nos era interditada. A pílula anticoncepcional, em 1962, nos deu o controle do próprio corpo e, em 1977, o divórcio nos deu a autonomia e o direito de recomeçar. Mais recentemente, em 2006, a Lei Maria da Penha e, em 2023, a derrubada da tese arcaica da “legítima defesa da honra” pelo STF.
Contudo, enquanto as leis e as mulheres mudaram, não houve uma “revolução” equivalente que obrigasse o homem a rever seu interior. Muitos continuam sendo educados pelos mesmos fantasmas de seus avós, refletindo um machismo estrutural que ainda se manifesta na diferença salarial e na baixa representatividade política.
Em sua maioria, os homens não sabem como lidar com essa nova versão de mulher. Daí nasce o medo citado por Galeano. É como se eles recebessem ao nascer um “manual” que exige que sejam provedores, superiores e emocionalmente mudos (o famoso “homem não chora”). O problema surge quando esse homem se depara com uma mulher independente e emocionalmente segura. Diante dela, ele se sente frágil, diminuído e perdido.
Observo isso quando conquistas profissionais femininas são respondidas com ausências e pretextos em jantares e eventos de celebração de uma conquista feminina. Onde a mulher brilha por mérito próprio, o homem que ainda carrega o manual antigo sente-se na sombra — e a sombra lhe causa pânico. Sem saber como reagir a essa “mulher sem medo”, muitos decidem pelo caminho da força bruta e da barbárie que assistimos diariamente nos jornais.
Em uma aula de ciências sociais, ouvi algo que me deu a chave para entender esse caos: quando uma época antiga se encerra e outra tenta surgir, acontecem as “rebeliões” reacionárias. É o que Antonio Gramsci chamava de interregno: um período de transição onde o velho mundo ainda não morreu totalmente e o novo ainda não conseguiu nascer.
A mulher “sem medo” é aquela que não pode ser chantageada pela necessidade. Se ela está com um homem, é por desejo, não por dependência. Para muitos, isso é aterrorizante, pois o amor baseado na liberdade exige um esforço emocional para o qual eles não foram treinados. Mas essa independência não deveria ser vista como ameaça, e sim como um convite para que o homem também se liberte de suas amarras. Ele agora precisa ser interessante pelo que ele é, e não pelo que provê.
Essa busca por uma nova masculinidade é o foco de obras fundamentais como os documentários O Silêncio dos Homens e Precisamos Falar com os Homens? Em seus depoimentos, vemos homens despertando para a conscientização de que o machismo é uma prisão para todos.
Precisamos falar sobre isso e educar nossos filhos e filhas para que as próximas gerações não herdem essas feridas. Com certeza, nenhum homem gostaria de ver sua filha ou sua mãe sofrer a violência que o machismo produz. Afinal, vale sempre lembrar: todos eles precisaram de uma mulher para lhes dar a vida.
Para quem deseja aprofundar a reflexão:
Assista ao documentário O Silêncio dos Homens (Canal Papo de Homem).
Assista ao documentário Precisamos Falar com os Homens? ONU Mulheres Brasil