Da Caverna de Platão às Redes Sociais: Como a Pós-Verdade Molda Nossa Percepção da Realidade

Pós Verdade

Você já compartilhou uma informação sem verificar a fonte porque ela parecia verdadeira? Ou acreditou em uma notícia apenas porque ela confirmava algo que você já pensava?

Talvez você já tenha vivenciado, sem perceber, uma situação típica da pós-verdade: quando emoções e crenças pessoais passam a exercer mais influência sobre aquilo que consideramos verdadeiro do que os próprios fatos.

A Academia Brasileira de Letras define a pós-verdade como a distorção deliberada da verdade em favor do apelo emocional e de crenças pessoais, uma informação que, mesmo sem respaldo em fatos, é aceita como verdadeira e acaba moldando a opinião pública.

Talvez surpreenda saber que essa fragilização da verdade já vinha sendo discutida muito antes de as redes sociais existirem. Em 1979, o filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998), em seu livro intitulado “A Condição Pós-Moderna” (La Condition postmoderne: rapport sur le savoir, no original em francês), nos ajuda a compreender a crise da verdade ao dizer que ela seria substituída por validades e que a validade de um discurso depende apenas das regras aceitas por um determinado grupo. Sua análise aponta para a transformação da informação em uma importante mercadoria e para a possibilidade de que a eficiência narrativa substitua a busca desinteressada pela verdade. Décadas depois, essas reflexões nos auxiliam a entender parte do cenário em que se desenvolveu o que hoje chamamos de pós-verdade.

Se Lyotard já enxergava a informação como a nova mercadoria do saber, faltava apenas a ferramenta que a colocaria à venda, em larga escala, para qualquer pessoa. Essa ferramenta chegou em 2004, com o advento da Web 2.0: a internet deixava de ser um espaço de leitura passiva e se tornava um ambiente de participação, onde qualquer usuário podia criar, publicar e compartilhar conteúdo sem depender de veículos tradicionais de imprensa. Blogs, fóruns e as primeiras redes sociais deram a cada pessoa o poder de criar e disseminar sua própria narrativa, sem intermediários, sem verificação, sem freios. A partir do final dos anos 2000 e, especialmente, ao longo da década de 2010, as principais plataformas passaram progressivamente a utilizar algoritmos para selecionar e priorizar conteúdos com base em diferentes sinais de interesse e engajamento. E com isso, surgem as “bolhas de filtro”: os algoritmos passam a entregar para cada usuário apenas a informação que reforça o que ele já acredita.

Bastariam mais alguns anos para que esse poder revelasse toda a sua força, em dois acontecimentos que mudariam o rumo da história recente.

Esses dois acontecimentos foram o referendo do Brexit, no Reino Unido, e a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, ambos em 2016. Naquele ano, o uso do termo “pós-verdade” disparou a ponto de o Dicionário Oxford elegê-lo como Palavra do Ano, definindo-o como a condição em que fatos objetivos passam a pesar menos do que emoções e crenças pessoais na formação da opinião pública.

O que era, em 1979, uma hipótese filosófica sobre o fim das grandes verdades universais, tornava-se, quase quarenta anos depois, um diagnóstico do nosso tempo.

Foi justamente nesse cenário que o jornalista britânico Matthew D’Ancona se debruçou sobre o fenômeno da pós-verdade em seu livro intitulado “Pós-Verdade – A Nova Guerra Contra os Fatos em Tempos de Fake News”. Para D’Ancona, essa é justamente a marca central da pós-verdade: a verdade deixa de ser um fato, um julgamento racional e criterioso, para se tornar uma questão de preferência, como se cada um de nós montasse sua própria realidade da mesma forma que monta um prato num bufê, escolhendo apenas o que lhe agrada.

O autor observa que o verdadeiro fenômeno novo não está na mentira em si, afinal, políticos sempre mentiram, mas na forma como o público passou a reagir a ela. Aquilo que antes provocava indignação hoje é recebido com indiferença, e essa indiferença, com o tempo, se transforma em conivência silenciosa. A mentira, antes exceção a ser combatida, corre o risco de se tornar regra aceita.

Essa dinâmica, no entanto, ganha contornos ainda mais graves quando olhamos para o Brasil. Os editores da edição brasileira do livro de D’Ancona fazem uma observação contundente: se a pós-verdade é novidade alarmante na Inglaterra e nos Estados Unidos, por aqui ela não chega como ruptura, chega como continuidade. Segundo eles, o país teria passado de uma mentalidade mitopoética diretamente à pós-verdade, sem nunca atravessar, de fato, uma “era da verdade”. A explicação está na própria formação histórica brasileira: a primazia da verdade como valor público é herança do Iluminismo, movimento que nunca fincou raízes sólidas por aqui. Décadas antes, o historiador Sérgio Buarque de Holanda já havia identificado esse traço em nossa cultura, em sua obra Raízes do Brasil, publicada em 1936: somos um povo em que a emoção tende a falar mais alto que a razão, a ponto de a própria hostilidade entre nós carregar um tom “cordial”, do coração. Ou seja, segundo o autor, o brasileiro tende a basear suas relações sociais na emoção, em detrimento do rigor formal, da impessoalidade e da racionalidade exigidas pelas instituições públicas. Se lá fora a pós-verdade representa a erosão de uma confiança racional conquistada ao longo de séculos, aqui ela encontra terreno fértil onde essa confiança talvez nunca tenha existido de forma consolidada.

Essa tensão entre razão e emoção, entre verdade e conforto, não nasceu com as redes sociais, nem mesmo com o Iluminismo. Ela atravessa a história do pensamento humano, e ninguém a ilustrou de forma tão duradoura quanto Platão, em sua alegoria da caverna.

Considerando tudo o que li e pesquisei sobre o assunto, não pude deixar de relacionar a alegoria com a pós-verdade. A conexão é muito grande e nos dá um exemplo de como podemos ser manipulados ao recebermos informações distorcidas e completamente fora da realidade. As redes sociais não são necessariamente a caverna. A caverna pode ser a nossa relação passiva com aquilo que recebemos delas. O problema não é simplesmente existir informação nas redes. O problema é como selecionamos, interpretamos, compartilhamos e acreditamos nessa informação.

Muito antes de existirem redes sociais, algoritmos ou fake news, o filósofo grego, há mais de dois mil anos, já havia identificado esse mesmo impulso humano de preferir a ilusão confortável à verdade incômoda. Em sua célebre alegoria da caverna, ele descreve prisioneiros acorrentados desde o nascimento, capazes de enxergar apenas sombras projetadas numa parede, sombras que, para eles, são a única realidade possível. Sem conhecer outra realidade, acreditam que aquelas sombras representam o mundo como ele realmente é. Quando um dos prisioneiros consegue se libertar e sair da caverna, a luz do sol o ofusca e machuca; sua primeira reação não é gratidão, mas o desejo de voltar às sombras que já conhecia. Ele fica perplexo com o que vê e descobre que aquilo que via eram apenas projeções de uma realidade muito mais ampla.

Ao retornar para compartilhar sua descoberta, encontra resistência, incredulidade e até hostilidade. Os demais prisioneiros preferem permanecer fiéis às sombras que sempre conheceram. Embora escrita na antiguidade, essa alegoria parece surpreendentemente atual. Na era digital, as “sombras” podem assumir a forma de informações distorcidas, notícias falsas, conteúdos manipulados ou narrativas construídas para despertar emoções específicas. Muitas vezes, não enxergamos os fatos em sua totalidade, mas apenas fragmentos selecionados por algoritmos, grupos ideológicos ou interesses particulares.

A pós-verdade se fortalece justamente nesse ambiente. Quando emoções e crenças pessoais passam a valer mais do que evidências verificáveis, o conforto das sombras pode parecer mais atraente do que o esforço necessário para buscar a luz dos fatos. Afinal, questionar convicções exige desconforto, revisão de ideias e disposição para admitir que podemos estar errados.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja a falta de informação, mas a capacidade de distinguir conhecimento de aparência, evidência de opinião e verdade de conveniência. Assim como o prisioneiro que saiu da caverna, somos constantemente convidados a olhar além das projeções que nos cercam.

Pensemos nas consequências que podem surgir quando a desinformação alcança áreas como saúde e política. A manipulação de informações e de dados científicos pode provocar decisões capazes de gerar mortes e sequelas, algumas delas irreversíveis. Na política, a circulação de narrativas falsas ou distorcidas pode influenciar eleições, ampliar polarizações e alterar a trajetória de um país. Em uma perspectiva ainda mais ampla, seus efeitos podem ultrapassar fronteiras e repercutir no cenário geopolítico mundial.

Mas estamos realmente dispostos a deixar a caverna quando a verdade desafia aquilo em que acreditamos?

A alegoria de Platão, escrita há mais de dois mil anos, ganha uma nova pergunta diante do fenômeno da pós-verdade: e se as sombras que aceitamos como realidade forem, na verdade, escolhas, feitas por nós ou por outros, para nos manter confortavelmente enganados?

Talvez a grande questão do século XXI não seja se temos acesso à verdade, mas se ainda estamos dispostos a procurá-la.

E você? Está observando as sombras projetadas na parede ou se aventurando para além da caverna?


Imagem: Unsplash – Joshua Sortino

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